Península de Setúbal<br> - um espelho de 20 anos da integração
À medida que a crise económica e social se aprofunda (e já lá vão cinco anos de contínuo empobrecimento do nosso País sem que se vislumbrem sinais de recuperação), as ilusões fomentadas por milionárias campanhas de propaganda desvanecem-se no embate real com a dureza do quotidiano. A península de Setúbal é uma das regiões mais atingidas pelos efeitos negativos da adesão de Portugal à então CEE.
A integração na CEE e as políticas de direita são responsáveis pela destruição do aparelho produtivo
Face ao persistente declínio da economia, ao agravamento do desemprego e das condições de vida dos portugueses, é frequente ouvir-se os arautos da Europa liberal afirmarem que tudo estaria muito pior se Portugal não tivesse aderido à CEE, em 1 de Janeiro de 1986.
À força de ser repetida, com óbvios objectivos propagandísticos, esta tese tornou-se quase numa banalidade comummente aceite. No entanto, tanto àqueles que a professam militantemente como aos que nela acreditam por senso comum coloca-se uma pergunta que raras vezes tem sido feita.
Por que razão viveriam, hoje, pior os portugueses se o País dispusesse de uma indústria pesada equivalente, pelo menos, à que existia há 20 anos? Por que razão a situação do País estaria, hoje, pior se a produção agrícola alcançasse os níveis de auto-suficiência de há duas décadas? Por que razão, finalmente, seria, hoje, pior a crise se a indústria de pescas mantivesse o vigor que lhe era conhecido antes de ser deliberadamente destruída, à semelhança de outros sectores, a coberto das orientações comunitárias?
A estas e outras perguntas, a resposta é certamente mais óbvia do que a tese determinista que recusa sequer formulá-las.
Um historial de destruição
Os factos recordados no seminário de Palmela, não sendo novidade para ninguém, demonstram à saciedade que o caminho seguido nos últimos 20 anos, coincidindo com o processo de destruição das conquistas da revolução e com a inversão da via de desenvolvimento então iniciada, deixou um impressionante rastro de destruição na Península de Setúbal, fazendo recuar o seu aparelho produtivo para um patamar de onde nunca mais recuperou.
Os exemplos, abundantes e elucidativos, foram referidos em cerca de duas dezenas de intervenções que focaram os diferentes aspectos da evolução socioeconómica no distrito.
José Caetano, do CC e da DORS do PCP, lembrou que havia na região importantes unidades industriais nos sectores siderúrgico, química pesada, metalomecânica, indústria naval, têxteis, pesca, conservas alimentares com produtos do mar e agrícolas, entre outras.
Com o fim das barreiras aduaneiras e o declínio da produção face à importação de produtos excedentários da CEE, a generalidade destes sectores desapareceu ou manteve uma existência residual.
Na química pesada, designadamente na metalurgia do cobre, os projectos em curso antes da integração foram abandonados porque as quotas fixadas a Portugal nos produtos siderúrgicos eram inferiores ás suas exportações para os países da comunidade. As pirites de Neves Corvo foram vendidas a estrangeiros e a produção de cobre passou para países como a Espanha, em vez de servir à modernização da Siderurgia Nacional, cujo destino também ficou traçado.
Mais de seis mil postos de trabalho directos foram destruídos, sendo incalculável a perda de riqueza para o País com reflexos em todos os sectores da economia.
As pescas foram outro importante sector flagelado pela integração, que levou à quase extinção da frota pesqueira e ao desaparecimento da indústria conserveira. Só nesta última foram destruídos mais de dois mil postos de trabalho. Em consequência, País é obrigado a importar actualmente 70 por cento do pescado que consome.
Muitos pequenos estaleiros de reparação e construção naval fecharam as portas, destacando-se o caso ímpar da Lisnave, recordado no seminário por José Pereira, do CC do PCP, onde dos 5300 trabalhadores que ali laboravam em 1983, restam pouco mais de 400. No seu conjunto, este sector vital, num País voltado para o mar, chegou a empregar cerca de 20 mil trabalhadores. Hoje, não passam de cinco mil.
Nesta breve revista das actividades económicas do distrito, salienta-se ainda o encerramento das grandes empresas têxteis, com prejuízo de mais de cinco mil postos de trabalho, bem como a crise na agricultura provocada pela imposição de quotas de tomate, que provocou o encerramento das fábricas de conservas e a falência de muitos pequenos agricultores.
De acordo com números citados por Avelino Nunes, membro da DORS do PCP com actividade na Associação de Agricultores do Distrito de Setúbal, entre 1989 e 1999, desapareceram 3307 explorações, boa parte das quais de pequenos e médios agricultores.
Apesar de muitos inscritos não terem usado da palavra por falta de tempo, várias outras intervenção entregues à mesa, às quais o Avante! teve acesso, debruçaram-se sobre a luta dos trabalhadores em diversas empresas, designadamente na Alcoa e Autoeuropa, denunciaram a degradação dos serviços públicos, designadamente no campo dos transportes, saúde e da educação, e alertaram para as dificuldades vividas no sector cooperativo, bem como pelos os micro e pequenos empresários.
Registos
do Seminário
«Quando se fala em “menos Estado” está a afirmar-se menos Saúde, menos Ensino, menos Segurança Social, ao fim e ao cabo menos serviços públicos».
Rui Paixão
«Sem serviços públicos de qualidade não há verdadeiro desenvolvimento e melhoria das condições de vida».
Telma Capucho
«[O Governo PS] pretende iniciar e consolidar a destruição do serviço público da água, da organização e dos papel do Estado salvaguardados na Constituição».
Carlos Maurício
«A privatização deste sector [água] representará a fortuna de uns poucos e a dependência de todos face a esse grupo e aos seus interesses».
João Afonso Luz
«O processo de Bolonha introduz no ensino superior público europeu as bases da discriminação económica, a mais ignóbil de todas as discriminações».
Luís Vicente
«Só o compadrio e o tráfico de influências podem justificar os privilégios que o Estado está a conceder à Fertagus»
Filipe Marques
«A decisão de instalar a co-incineração na Secil-Outão (...) foi entendida com um acto de vingança e teimosia do antigo ministro do Ambiente e actual primeiro-ministro».
Henrique Gonçalves
«As pequenas empresas, sendo responsáveis pela grande maioria do emprego e da riqueza do País, são igualmente as mais vulneráveis aos efeitos do mercado aberto»
José Manta
«A ideia de que todos devemos ter as mesmas possibilidades requeridas pela igualdade competitiva (...) é uma fantasia a favor de alguns e não de todos».
Fernando Parreira
À força de ser repetida, com óbvios objectivos propagandísticos, esta tese tornou-se quase numa banalidade comummente aceite. No entanto, tanto àqueles que a professam militantemente como aos que nela acreditam por senso comum coloca-se uma pergunta que raras vezes tem sido feita.
Por que razão viveriam, hoje, pior os portugueses se o País dispusesse de uma indústria pesada equivalente, pelo menos, à que existia há 20 anos? Por que razão a situação do País estaria, hoje, pior se a produção agrícola alcançasse os níveis de auto-suficiência de há duas décadas? Por que razão, finalmente, seria, hoje, pior a crise se a indústria de pescas mantivesse o vigor que lhe era conhecido antes de ser deliberadamente destruída, à semelhança de outros sectores, a coberto das orientações comunitárias?
A estas e outras perguntas, a resposta é certamente mais óbvia do que a tese determinista que recusa sequer formulá-las.
Um historial de destruição
Os factos recordados no seminário de Palmela, não sendo novidade para ninguém, demonstram à saciedade que o caminho seguido nos últimos 20 anos, coincidindo com o processo de destruição das conquistas da revolução e com a inversão da via de desenvolvimento então iniciada, deixou um impressionante rastro de destruição na Península de Setúbal, fazendo recuar o seu aparelho produtivo para um patamar de onde nunca mais recuperou.
Os exemplos, abundantes e elucidativos, foram referidos em cerca de duas dezenas de intervenções que focaram os diferentes aspectos da evolução socioeconómica no distrito.
José Caetano, do CC e da DORS do PCP, lembrou que havia na região importantes unidades industriais nos sectores siderúrgico, química pesada, metalomecânica, indústria naval, têxteis, pesca, conservas alimentares com produtos do mar e agrícolas, entre outras.
Com o fim das barreiras aduaneiras e o declínio da produção face à importação de produtos excedentários da CEE, a generalidade destes sectores desapareceu ou manteve uma existência residual.
Na química pesada, designadamente na metalurgia do cobre, os projectos em curso antes da integração foram abandonados porque as quotas fixadas a Portugal nos produtos siderúrgicos eram inferiores ás suas exportações para os países da comunidade. As pirites de Neves Corvo foram vendidas a estrangeiros e a produção de cobre passou para países como a Espanha, em vez de servir à modernização da Siderurgia Nacional, cujo destino também ficou traçado.
Mais de seis mil postos de trabalho directos foram destruídos, sendo incalculável a perda de riqueza para o País com reflexos em todos os sectores da economia.
As pescas foram outro importante sector flagelado pela integração, que levou à quase extinção da frota pesqueira e ao desaparecimento da indústria conserveira. Só nesta última foram destruídos mais de dois mil postos de trabalho. Em consequência, País é obrigado a importar actualmente 70 por cento do pescado que consome.
Muitos pequenos estaleiros de reparação e construção naval fecharam as portas, destacando-se o caso ímpar da Lisnave, recordado no seminário por José Pereira, do CC do PCP, onde dos 5300 trabalhadores que ali laboravam em 1983, restam pouco mais de 400. No seu conjunto, este sector vital, num País voltado para o mar, chegou a empregar cerca de 20 mil trabalhadores. Hoje, não passam de cinco mil.
Nesta breve revista das actividades económicas do distrito, salienta-se ainda o encerramento das grandes empresas têxteis, com prejuízo de mais de cinco mil postos de trabalho, bem como a crise na agricultura provocada pela imposição de quotas de tomate, que provocou o encerramento das fábricas de conservas e a falência de muitos pequenos agricultores.
De acordo com números citados por Avelino Nunes, membro da DORS do PCP com actividade na Associação de Agricultores do Distrito de Setúbal, entre 1989 e 1999, desapareceram 3307 explorações, boa parte das quais de pequenos e médios agricultores.
Apesar de muitos inscritos não terem usado da palavra por falta de tempo, várias outras intervenção entregues à mesa, às quais o Avante! teve acesso, debruçaram-se sobre a luta dos trabalhadores em diversas empresas, designadamente na Alcoa e Autoeuropa, denunciaram a degradação dos serviços públicos, designadamente no campo dos transportes, saúde e da educação, e alertaram para as dificuldades vividas no sector cooperativo, bem como pelos os micro e pequenos empresários.
Registos
do Seminário
«Quando se fala em “menos Estado” está a afirmar-se menos Saúde, menos Ensino, menos Segurança Social, ao fim e ao cabo menos serviços públicos».
Rui Paixão
«Sem serviços públicos de qualidade não há verdadeiro desenvolvimento e melhoria das condições de vida».
Telma Capucho
«[O Governo PS] pretende iniciar e consolidar a destruição do serviço público da água, da organização e dos papel do Estado salvaguardados na Constituição».
Carlos Maurício
«A privatização deste sector [água] representará a fortuna de uns poucos e a dependência de todos face a esse grupo e aos seus interesses».
João Afonso Luz
«O processo de Bolonha introduz no ensino superior público europeu as bases da discriminação económica, a mais ignóbil de todas as discriminações».
Luís Vicente
«Só o compadrio e o tráfico de influências podem justificar os privilégios que o Estado está a conceder à Fertagus»
Filipe Marques
«A decisão de instalar a co-incineração na Secil-Outão (...) foi entendida com um acto de vingança e teimosia do antigo ministro do Ambiente e actual primeiro-ministro».
Henrique Gonçalves
«As pequenas empresas, sendo responsáveis pela grande maioria do emprego e da riqueza do País, são igualmente as mais vulneráveis aos efeitos do mercado aberto»
José Manta
«A ideia de que todos devemos ter as mesmas possibilidades requeridas pela igualdade competitiva (...) é uma fantasia a favor de alguns e não de todos».
Fernando Parreira